A Coreia determina a nacionalidade pela filiação, não pelo lugar de nascimento. Uma criança nascida em solo coreano de dois pais estrangeiros não se torna coreana, e não pode ser inscrita no registro coreano de relações familiares (가족관계등록부, gajokgwangye deungnokbu) — esse registro existe para nacionais coreanos. O que o nascimento cria, em vez disso, é um conjunto de obrigações perante duas administrações ao mesmo tempo, em dois relógios diferentes.

→Os Dois Registros Não São a Mesma Coisa

As pessoas chegam ao meu escritório tendo feito um dos dois e supondo que ele cobria o outro. Não cobre.

O Que ÉOnde Se Faz
Registrar o nascimento perante o seu próprio país — a base do passaporte e da nacionalidade da criançaSua embaixada ou consulado na Coreia, conforme as regras do seu país
Obter o direito da criança de permanecer na Coreia — concessão de status de permanência (체류자격 부여, cheryujagyeok buyeo)Imigração coreana, sob a Lei de Imigração

A declaração de nascimento do hospital (출생증명서, chulsaeng jeungmyeongseo) é o documento que inicia os dois. Peça várias vias originais antes de sair e mande traduzir cedo — ela será exigida repetidas vezes, e os hospitais ficam mais lentos para reemitir conforme o tempo passa.

→O Prazo de 90 Dias do Lado Coreano

Um estrangeiro nascido na Coreia que pretenda ficar precisa requerer a concessão de status de permanência (체류자격 부여, cheryujagyeok buyeo) dentro de 90 dias do nascimento. Esse é o prazo que pega os pais de primeira viagem, porque nada na alta hospitalar o menciona.

Um recém-nascido não tem como ficar irregular por culpa própria. O cadastro não se importa: ele simplesmente mostra um status irregular que a criança vai carregar em cada pedido futuro.

→Quando Um dos Pais É Coreano

Aqui a análise muda por completo. A nacionalidade coreana se transmite por qualquer um dos pais, de modo que uma criança com pai ou mãe coreana é em regra coreana desde o nascimento — e o passo correto é o registro coreano de nascimento (출생신고, chulsaengsingo), que a inscreve no registro de relações familiares, e não um pedido à imigração.

A complicação surge quando os pais não são casados e o genitor coreano é o pai. A nacionalidade por via paterna nessa situação depende em geral do reconhecimento legal da paternidade (인지, inji):

Esses casos valem a pena ser tratados cedo. Cada mês de atraso soma uma criança sem passaporte, sem plano de saúde e sem base legal para permanecer.

→O Que Custa de Verdade Adiar

Os pais que adiam costumam fazê-lo porque falta um documento, ou por medo do que o contato com as autoridades vai desencadear. As consequências se acumulam em silêncio:

Esse último risco é o que exige ação imediata, porque é o único que se torna genuinamente difícil de reverter. Se o seu próprio país limita a nacionalidade por descendência, descubra essa regra nas primeiras semanas — não depois do prazo que você não sabia que existia.

→Se o Problema É o Status dos Próprios Pais

Uma parcela significativa desses casos envolve pais que estão eles mesmos irregulares e que por isso evitam qualquer repartição. É um cálculo compreensível e quase sempre errado.

A posição da criança é separada da infração dos pais, e as consequências de deixá-la sem registro são permanentes de um jeito que a multa ou a ordem de saída de um adulto não são. Há formas de abordar isso que tratam o registro do filho e a exposição dos pais como um plano só, e não como uma aposta — mas isso exige saber, antes de entrar por uma porta, qual é a faixa realista de resultados. Entrar no escuro, ou não entrar nunca, são as duas piores opções.

→Uma Nota Para Quem Lê Isto em Português

Boa parte das famílias brasileiras e portuguesas que me escrevem depois de um parto na Coreia parte do princípio de que a criança nascida aqui é coreana, porque no Brasil o nascimento em território nacional dá a nacionalidade. A Coreia não funciona assim. E, ao mesmo tempo, o registro consular do nascimento é o que garante à criança a nacionalidade dos pais, com regras e prazos próprios de cada consulado. Os dois relógios correm juntos e nenhum espera pelo outro: vale colocar as duas datas no calendário na mesma semana em que você sai do hospital.