Na Coreia, a filmagem ilegal (불법촬영) não é processada pelo Código Penal comum, e sim pela Lei de Casos Especiais sobre a Punição de Crimes Sexuais (성폭력범죄의 처벌 등에 관한 특례법) — e é justamente isso que explica tudo. Significa que a delegacia tem uma equipe dedicada a esses casos, que o que se examina é o celular e não apenas a versão do ocorrido, e que uma condenação traz consequências que ficam ligadas ao seu nome por anos, muito depois de qualquer multa ter sido paga.

Significa também que várias das certezas com que estrangeiros chegam ao primeiro depoimento estão erradas. Apagar o arquivo não é defesa. Nunca ter mandado para ninguém não é defesa. E, numa hipótese que surpreende quase todo mundo, ter apenas recebido também não é.

→Quatro Crimes, Não Um

O artigo 14 da Lei de Punição da Violência Sexual (성폭력처벌법) separa a conduta em crimes distintos, cada um com sua própria faixa de pena. Entender de qual deles você está sendo acusado de fato é o primeiro passo prático, porque as defesas são completamente diferentes.

CondutaComo a Lei Trata
Filmar (촬영)Filmar o corpo de outra pessoa contra a vontade dela, quando o que foi filmado pode causar desejo sexual ou vergonha — prisão de até sete anos ou multa de até cinquenta milhões de wons
Divulgação (반포등)Divulgar, vender, alugar, fornecer ou exibir publicamente as imagens — vale a mesma faixa, inclusive quando a filmagem em si foi consentida, se a divulgação foi contra a vontade da pessoa filmada
Divulgação com fins lucrativosDivulgar por meio de rede de informação e comunicação (정보통신망) com fins lucrativos é tratado com muito mais rigor, com pena mínima legal de prisão em vez de multa
Possuir ou assistirComprar, possuir, armazenar ou assistir a imagens sabendo que foram filmadas ilegalmente é crime por si só — prisão de até três anos ou multa de até trinta milhões de wons

A quarta linha é a que pega gente comum. Um arquivo encaminhado num grupo de mensagens, salvo sem pensar muito e nunca repassado não é um ato neutro para a lei coreana. A reiteração habitual agrava a pena, e a tentativa também é punida — uma câmera posicionada mas que ainda não gravou não deixa você a uma distância segura do crime.

A pergunta nunca é “eu compartilhei?”. É “o que tem no aparelho e o que o histórico dele mostra?”.

→Do Que Depende de Verdade o “Contra a Vontade”

Num caso contestado, dois elementos fazem todo o trabalho: se o que foi filmado se enquadra na descrição da lei e se a filmagem foi feita contra a vontade da pessoa filmada.

Nenhum dos dois é decidido apenas pela intenção do acusado. Os tribunais coreanos avaliam o primeiro de forma objetiva — a parte do corpo, o ângulo, a distância, o enquadramento, se a câmera foi segurada baixa ou escondida e se a pessoa era identificável. Uma foto tirada na altura normal numa praça pública é uma prova diferente de outra tirada de baixo numa escada, mesmo que as duas tenham sido feitas com o mesmo celular no mesmo minuto.

O segundo elemento é onde mora a discussão sobre consentimento — e onde ela mais costuma falhar. Consentir em ser fotografado não é consentir em ser fotografado de qualquer jeito, e consentir com a filmagem definitivamente não é consentir com a divulgação. Quando um relacionamento termina mal e um vídeo íntimo gravado com acordo dos dois é depois enviado para quem quer que seja, o caso que vem é de divulgação, e o consentimento anterior não serve de resposta.

→O Celular É o Caso

Quase todas essas investigações seguem o mesmo caminho. A polícia busca o aparelho, seja pedindo que você o entregue voluntariamente (임의제출), seja obtendo um mandado de busca e apreensão (압수수색영장), e o celular vai para perícia forense digital (디지털 포렌식).

O que a perícia recupera costuma ser bem mais do que aparece na tela. Arquivos apagados muitas vezes podem ser restaurados, os backups na nuvem ampliam o material para além do aparelho, e os metadados de cada arquivo guardam o horário e, com frequência, o local em que ele foi criado. Os aplicativos de mensagem preservam o que foi enviado e recebido, inclusive em conversas das quais o acusado nem se lembra de ter participado.

É assim que, na maioria das vezes, um caso limitado vira um caso grande: uma investigação aberta sobre uma data e um local encontra material ligado a outras datas e outros locais, e a acusação se amplia. E é assim também que surge uma decisão que a maioria dos estrangeiros toma sem orientação — entregar ou não o celular voluntariamente quando pedem.

→O Que Vem com a Condenação, Além da Pena

Estrangeiros costumam perguntar sobre a multa ou a prisão. Raramente é isso o que mais pesa no resultado.

Uma condenação por crime sexual na Coreia normalmente traz o registro de informações pessoais (신상정보 등록) e as obrigações periódicas de comunicação que o acompanham. Pode vir também a restrição de emprego (취업제한), que fecha o trabalho em escolas, academias de ensino, creches e instituições semelhantes — o que, para quem tem visto de professor como o E-2, significa perder a própria base do seu status. Programas determinados pelo tribunal e, em alguns casos, medidas de notificação também podem ser impostos. Os aparelhos e o material ligados ao crime estão sujeitos a confisco.

E ainda tem a parte migratória, que corre por conta própria. Uma condenação criminal é motivo para revisar o status de residência, negar uma prorrogação ou buscar a deportação, e uma proibição de saída do país (출국정지) pode estar em vigor muito antes de qualquer uma dessas coisas ser decidida — ou seja, sair da Coreia para o problema acabar geralmente não é uma opção e, se você tentar, piora tudo o que vem depois.

→Se a Investigação Já Começou

A fase inicial é a que decide esses casos, e quase sempre ela já passou quando as pessoas procuram orientação.

  1. Descubra de qual crime você é acusado antes de responder qualquer coisa. Filmar, divulgar e possuir são acusações diferentes, com defesas diferentes, e a intimação ou as primeiras perguntas do policial costumam mostrar qual está em jogo
  2. Não mexa no aparelho. Nada de apagar, nada de restaurar as configurações de fábrica, nada de entregar a um amigo para guardar
  3. Não diga nada que você não consiga sustentar depois. O direito de permanecer calado vale para você, como estrangeiro, nos mesmos termos que para qualquer pessoa, e um primeiro depoimento dado para ajudar é a coisa mais difícil de desfazer no processo
  4. Leve a posição da vítima a sério, e cedo. Quando a acusação tem fundamento, um acordo (합의) genuíno com a pessoa filmada é o fator de maior peso no resultado — mas não é um recibo que se compra no fim, e uma aproximação desajeitada ou direta pode virar mais um problema
  5. Cuide da consequência migratória em paralelo. Resolver o caso criminal ignorando o seu status é só metade do resultado

E se você é a pessoa que foi filmada: isto é um crime processado pelo Estado, não um constrangimento particular para você administrar sozinho. A denúncia dá início ao processo para tirar o material das plataformas em que ele circula, existe apoio de órgãos públicos para a remoção, e quanto antes a denúncia, mais material ainda pode ser rastreado.

→Uma Nota para Quem Lê Isto em Português

É fácil achar que, se você nunca compartilhou nada, não existe caso. Na Coreia, o que está no seu celular pode bastar. Se chegou uma intimação da polícia ou pediram o seu aparelho, posso ver isso com você em português antes do seu depoimento ou da entrega.