A prática penal coreana trata o acordo entre acusado e vítima como um fato sério, não como um arranjo privado à parte. Para toda uma categoria de crimes ele extingue o processo diretamente. Para outra, pode convencer um promotor a arquivar sem denunciar. Para o resto, reduz a pena e nada mais.

Residentes estrangeiros costumam chegar à negociação sem saber em qual dessas três estão, que é a pior posição possível para discutir dinheiro. O que vem a seguir é a estrutura.

→O Que É de Fato um Acordo

Um acordo (합의) nesse contexto é um pacto escrito entre o suspeito e a vítima. Normalmente tem duas partes, e só uma delas produz efeito jurídico.

Um acordo que transfere dinheiro mas omite ou dilui o segundo elemento compra muito menos do que quem paga imagina. Acontece com frequência, quase sempre porque o documento foi redigido a partir de um modelo achado na internet.

→Três Níveis de Efeito

O que o acordo faz depende de como o crime está classificado. São três grupos.

CategoriaEfeito do acordo
Crimes não perseguíveis contra a vontade expressa da vítima (반의사불벌죄) — agressão simples (폭행), ameaça (협박), difamação (명예훼손), lesão culposa e lesão em acidente de trânsito sob a lei especialA manifestação de não desejar a punição (처벌불원) encerra o caso. A denúncia fica impedida e um caso já em juízo é extinto
Crimes de ação penal privada (친고죄) — injúria (모욕), difamação de falecido, violação de segredoA retirada da representação (고소취소) encerra o caso. Uma vez retirada, não pode ser reapresentada pelo mesmo fato
Todo o resto — furto, estelionato, apropriação indébita, crimes sexuais, embriaguez ao volante, drogasSem efeito automático. O acordo sustenta um arquivamento por suspensão da denúncia (기소유예), uma pena suspensa ou uma multa menor

Duas coisas decorrem da tabela. A primeira é que boa parte dos casos que os residentes estrangeiros enfrentam — uma briga em bar, um empurrão numa discussão, uma mensagem exaltada, uma lesão leve de trânsito — está no primeiro grupo, em que o acordo não é atenuante, e sim saída. A segunda é que dirigir embriagado não tem vítima com quem acordar, razão pela qual ofertas de pagamento nesses casos são recebidas com educada perplexidade.

Nos dois primeiros grupos o acordo não é um pedido de clemência. Ele remove a base legal para o processo continuar.

→O Momento Decide Quanto Vale

O mesmo acordo vale coisas diferentes em momentos diferentes, e uma das opções se fecha em definitivo.

  1. Fase policial. Continua aberto o leque mais amplo de resultados. O inquérito vai ao promotor com o acordo anexado, e o caso pode terminar ali
  2. Fase do Ministério Público, antes da denúncia. A suspensão da denúncia (기소유예) ainda está disponível. Isso importa enormemente: é uma decisão de não denunciar, e não é condenação
  3. Depois da denúncia, antes da sentença de primeiro grau. Para os dois primeiros grupos o acordo ainda encerra o caso. Para o terceiro, reduz a pena
  4. Depois da sentença de primeiro grau. A manifestação de não desejar a punição não encerra mais nada. Vira atenuante comum no recurso

Essa última linha é o prazo que pega as pessoas. Quando o crime é daqueles que terminam com a palavra da vítima, essa palavra precisa chegar antes de o juízo sentenciar. Um acordo fechado uma semana depois é uma carta de recomendação muito cara.

→O Que o Documento Precisa Conter

O documento costuma ser curto. Ainda assim precisa fazer várias coisas ao mesmo tempo.

Há um ponto de redação que merece cuidado especial quando você contesta a imputação. Um acordo que registre que você assume responsabilidade por uma conduta descrita pode ser lido como admissão dos fatos. Quando a versão do ocorrido é disputada, o documento deve ser formulado como resolução do conflito e compensação pelas consequências, não como confissão com um pagamento anexo.

→Quando a Vítima Não Quer Conversar

Há vítimas que recusam todo contato, outras que pedem um valor sem relação com o dano, e casos em que não há como alcançá-las porque os dados estão sob reserva no processo. A resposta em todas essas situações é o depósito judicial em causa criminal (형사공탁).

O depósito é um pagamento unilateral em juízo em benefício da vítima. Não exige a concordância nem a colaboração dela, e um procedimento especial permite depositar em causas criminais sem que o depositante tenha os dados pessoais da vítima, usando a referência do processo. A vítima pode levantar o valor, ou não.

Um depósito não é um acordo e não tem o efeito extintivo descrito acima. O que ele faz é comprovar uma tentativa genuína de reparação, e é ponderado como atenuante. Duas ressalvas importam. Um depósito feito na véspera da sentença, sem nenhuma tentativa anterior de alcançar a vítima, é lido pelo que é. E um depósito em valor sem relação com o dano pode fazer mais mal do que não fazer nada, porque convida o juízo a dizer isso.

→Os Erros Que Mais Custam Caro aos Estrangeiros

Quatro se repetem o bastante para merecerem nome.

Procurar a vítima diretamente. Em crimes sexuais, em matérias domésticas e sempre que houver medida protetiva, o contato direto é um erro grave: pode ser tratado como pressão sobre testemunha ou como dano adicional, e já converteu tentativas de acordo em novas acusações. A aproximação deve ir pelo advogado, ou por quem investiga.

Pagar antes de o documento existir. Dinheiro transferido sobre promessa verbal, seguido de um pedido de mais antes de qualquer assinatura. A ordem é: acertar o texto, assinar, pagar, protocolar.

Tratar o valor como se fosse toda a negociação. O momento e a redação em geral importam mais. Um valor modesto com uma manifestação limpa de não desejar a punição (처벌불원), entregue antes da denúncia, rende mais do que um valor alto entregue tarde e com redação vaga.

Ignorar a consequência migratória. Esse é o que transforma um problema administrável em um problema permanente. Uma suspensão da denúncia (기소유예) deixa você sem condenação; uma multa criminal, não. Condenações são lidas quando um status de permanência é prorrogado ou alterado, quando se pede residência permanente ou naturalização, e em alguns casos quando a reentrada é avaliada. Para um residente estrangeiro, o valor de encerrar um caso na fase do Ministério Público não é só o dinheiro poupado: é o registro que nunca chega a existir.

→Uma Nota Para Quem Lê Isto em Português

Em português a palavra "acordo" soa a combinação informal entre duas pessoas, e por isso muitos clientes assinam sem advogado e sem tradução. Aqui isso é peça processual: mal redigida, pode admitir os fatos e não encerrar nada; bem redigida, pode terminar o processo antes de ele chegar ao juízo. Vale os dois dias que custa fazer direito.